Congregação das Irmãs Franciscanas

de Nossa Senhora das Vitórias

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O cuidado no acompanhamento e no processo formativo

“Porém, uma só coisa é necessária.” Lc 10, 42

Este foi o tema do encontro da Conferência da Família Franciscana do Brasil que decorreu de 30 de maio 2 de junho de 2024, em Guaratinguetá, São Paulo, Brasil. Teve como assessor o Frei António Corniatti, OFM Conv.

Para entendermos o cuidado no processo formativo é preciso refletir sobre o único necessário da vida Consagrada que é o Seguimento – Vocação.

Quando ouvimos ou usamos a palavra vocação, a nossa primeira reação é a de compreendê-la no sentido lato, ainda bastante vago e geral, “vocação de mãe”, “vocação de sacerdote” “vocação de religioso(a)”. Aqui vocação significa: inclinação, tendência, talento, qualidade inata numa pessoa que a determina por uma determinada profissão.

Vocação no sentido mais preciso e estrito da Vida Religiosa Consagrada não é somente inclinação, tendência, talento, mas em primeiro lugar, e decididamente: um Chamamento. Pois, o chamamento, a chamada, diz: Vem, segue-me! É, portanto, uma chamada, uma convocação para o seguimento. Cf Mc 2,14.

Esse dizer de Jesus que chama, que vem Dele e Dele somente, convocando que deixemos tudo e que O sigamos, é uma chamada concreta vinda diretamente sobre mim, à minha pessoa a partir da Pessoa de Jesus Cristo, convocando-me a uma ligação toda própria e única com Ele: a saber, a consagração de toda a minha vida a Ele no seu seguimento.

É nesse sentido que São Francisco de Assis define a Vida Religiosa Franciscana, na sua regra não bulada: A Regra e Vida dos irmãos é esta, a saber: Viver em obediência, em castidade e sem nada de próprio; e seguir a doutrina e o exemplo de nosso Senhor Jesus Cristo, que diz: Se queres ser perfeito, vai e vende tudo quanto tens e dá o seu preço aos pobres, e terás um tesouro no céu, depois vem e segue-me! Cf Mt 19, 21.

Como colocar o questionamento na formação inicial para a Vida Religiosa Consagrada?

Entendemos usualmente por recolocar a questão, uma espécie de renovação e inovação total de tudo o que viemos a fazer até agora. Falamos, assim, na necessidade de mudar estruturas antigas, os conteúdos, as formas e métodos de formação, dar enfim, uma formação mais adequada para as necessidades e as exigências do mundo e da Igreja de hoje. Questionar é buscar uma resposta quando uma busca perde o rumo e se agita em diferentes colocações. Toda a busca só é busca se for finita. Então é necessário se colocar, se assentar de novo numa busca mais finita, mais próxima de si mesma. Toda e qualquer formação eficiente gasta um longo tempo e muita energia na aprendizagem e na assimilação do elementar, o qual é o fundamento e base de todas as elaborações posteriores, mais complexas, mais sofisticadas, mais exigentes e especiais.

Quanto mais difíceis e perigosas as tarefas de uma profissão, tanto mais se preparam os candidatos no domínio do que é elementar e básico, com muitos exercícios, com muito rigor e repetição para que naquilo que sempre de novo entra em todas as ações e atividades como o seu elemento comum, o profissional tenha relativa facilidade, por tê-lo assimilado de tal modo que, o elementar se tenha tornado uma parte integrante do seu próprio ser.

Nas Fontes Franciscanas, percebemos que ali está presente o modo da formação, não tematicamente explicitado, mas sim operativamente atuante, como algo bem conhecido, em todas as ações dos irmãos. Um modo de formação que se anuncia em palavras e expressões como “vencer-se a si mesmo”, “salvação da alma”, “vícios e virtudes”, estes termos são referentes à prática da vida interior. O que denominamos de vida interior do homem, as Fontes Franciscanas chamam de homem interior Cf LTC 8. Entendemos por “interior do homem” o nosso eu e a sua vida íntima, o subjetivo em nós, o privativo, o particular. Nas Fontes Franciscanas, o homem interior significa o homem essencial, o fundamental, o básico no homem, aquela realidade primeira e originária, radical e universal de todos os homens, portanto, a realidade universal e essencial da humanidade sobre a qual deveriam basear-se todas as variantes e alternativas possíveis do ser homem. Se tentarmos com muito empenho e seriedade vasculhar a nossa própria casa, a nossa proximidade, chamada a ser franciscano/a, descobriremos um tesouro escondido que, se bem assimilado, pode transformar-se num segredo antigo e sempre novo da nossa formação Franciscana. O tesouro de que se trata são as Sagradas Escrituras e as Fontes Franciscanas, lidas, estudadas, meditadas, experimentadas, trabalhadas passo a passo, todos os dias. Não são estas o manual originário e fundamental da formação franciscana? Trata-se de um estudo existencial, isto é, um empenho no qual está em jogo um engajamento de toda uma existência humana.

A liberdade na formação deve seguir a liberdade discipular do seguimento de Jesus Cristo. A formação é essencialmente uma formação para a liberdade, desde o Aspirantado até ao tempo da Profissão Perpétua vamos crescendo para idade madura da plenitude de Cristo. Esse processo de amadurecimento é o perfazer-se da liberdade no Seguimento de Jesus Cristo. A liberdade do discípulo de Jesus Cristo, na sua busca rigorosamente discipular, sabe nitidamente que, os compromissos do projeto de Vida Consagrada são imperativos a que ele submete, livre, cordial e diligentemente, como direitos e deveres sagrados da obrigação grata da sua vocação.

Na formação é de importância vital para o formando que se evite da parte dos formadores o autoritarismo. A função dos formadores é de trabalhar cordialmente como servos inúteis para fomentar, cultivar, acompanhar os formandos com zelo e afeição pelo dom da vocação. Contudo, o formador deve saber que o respeito e reverência ao dom da vocação do formando não o exime da função de agente de discernimento vocacional, da qual não pode abdicar-se, sem prejuízo ao processo formativo. Com efeito, a formação é delicada qual tesouro em vaso de argila Cf 2 Cor 4,7 e basta um pouco para arruiná-la.

Outra postura do formador que causa danos à formação é duvidar do valor de seu trabalho específico, dificultando o reconhecimento da formação como sua pastoral prioritária e o grupo de formandos como a sua grei específica, da qual deve cuidar em tempo integral. Dizia Santo Agostinho, “Ama e faz o que quiseres” isto é: somente os que amam a causa conseguem dedicar-se às obrigações e suportar as agruras a ela inerentes sem carregar peso. É imprescindível que o formador não descuide da formação, que o seu trabalho comece com o testemunho de um bom cultivo da Vida Consagrada.

O formador é um religioso que exerce uma função formativa, mas é também um formando, alguém que tem de se esforçar para crescer e se consolidar na própria vocação e que, nesse processo, está sujeito a crises e equívocos. Por isso mesmo há que pedir sempre o dom do Espírito Santo e a sabedoria do alto e crescer no amor a Jesus para dar bons frutos e para perseverar na fidelidade ao dom que recebeu do Pai.

NA EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL, CHRISTUS VIVIT, O SANTO PADRE O PAPA FRANCISCO FALA SOBRE ESTA TEMÁTICA AOS JOVENS E A TODO O POVO DE DEUS, escutemo-lo: 248. “A palavra «vocação» pode-se entender em sentido amplo como chamada de Deus. Inclui a chamada à vida, a chamada à amizade com Ele, a chamada à santidade, etc. Isto tem um grande valor, porque coloca toda a nossa vida diante de Deus que nos ama, permitindo-nos compreender que nada é fruto dum caos sem sentido, mas, pelo contrário, tudo pode ser inserido num caminho de resposta ao Senhor, que tem um projeto estupendo para nós. 289. O dom da vocação será, sem dúvida, um dom exigente. Os dons de Deus são interativos e, para os desfrutar, é preciso pôr-me em campo, arriscar. Não será a exigência dum dever imposto por outro de fora, mas algo que te estimulará a crescer e a optar para que esse presente amadureça e se transforme em dom para os outros. Quando o Senhor suscita uma vocação, não pensa apenas no que és, mas em tudo o que poderás, juntamente com Ele e os outros, chegar a ser”.

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